Segunda, 19 Julho 2021 10:16

FRANGOS, E O DO BRASIL, EM DISCUSSÃO

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Relatório que avalia frangos em gigantes do fast-food inclui Brasil, releva nivelamento por baixo e pior que a média global

Problema vai além de lanches pouco saudáveis ou menos saborosos: falha do sistema de produção em garantir bem-estar na criação ameaça saúde animal, ambiental e humana

 

Proteção Animal Mundial, organização não-governamental que trabalha em prol do bem-estar animal, divulga hoje em todo o mundo a terceira edição do relatório “Botando Ordem no Galinheiro”De forma inédita o levantamento apresenta não somente dados gerais, mas investiga também as situações específicas em 14 países, incluindo o Brasil.

O documento aponta o nível de bem-estar na criação de frangos cuja carne abastece as oito principais redes de fast-food do planeta (dentre as quais sete atuam no Brasil). As notas gerais são extraídas a partir da avaliação de três aspectos principais, com igual peso, da atuação das empresas: compromissos corporativos, ambição por mudanças e transparência.

“O que apuramos no Brasil é um quadro desapontador, especialmente preocupante em relação à transparência, que está mais para indiferença mesmo. O Brasil aparece em 8º lugar na amostra muito porque algumas redes não trazem para cá as políticas que já empregam em alguns países da Europa e América do Norte. Além disso, alguns restaurantes zeraram por completo no levantamento simplesmente porque não prestam informações à sociedade”, resume o gerente de Agropecuária Sustentável da Proteção Animal Mundial, José Rodolfo Ciocca.

“Isso implica em outro problema grave para essas redes globais: a traição da confiança dos consumidores. Os clientes vêem nesses restaurantes o atributo de padronização, seja do ambiente, do tipo do serviço ou da qualidade dos alimentos. Enfim, da consistência da marca. Por isso alguém fica confortável em comer em um fast-food quando está em viagem a um novo país”, completa o gerente. “Mas nosso relatório mostra que há uma falha séria na padronização no que tange à postura ética e sustentável das redes ao redor do mundo. O que podemos intuir é que o lanche de frango de mesmo nome vendido no Reino Unido é melhor do que aquele comercializado no Brasil. Isso, ou o consumidor britânico merece mais respeito do que o brasileiro”.

Ninguém “passa de ano” no Brasil

Na análise por empresas, o quadro brasileiro mostra o McDonald’s bastante à frente dos demais concorrentes. Mas para o público a notícia poderia ser melhor: a rede atende a apenas 32% dos requisitos exigidos, obtendo o nível 4, equivalente a “começando (a mostrar evolução)” numa escala que vai de 6 (“muito ruim”) a 1 (“liderando”). Olhando por critérios, o McDonald’s obteve notas melhores que as outras redes em todos os três aspectos, com destaque para a adoção de compromissos.

Em segundo lugar aparece o Subway, com desempenho de 18%, suficiente para o nível 5 (“fraco”). O melhor resultado do Subway foi também no quesito dos compromissos corporativos.

Com despenho de 10%, o Burger King aparece na terceira posição da lista, ficando no nível 6. O patamar de 10% de adequação foi uniforme para todos os três aspectos analisados.

Ainda que tenha conseguido alguma pontuação, vale observar que o Burger King Brasil, em particular, tem tido ao longo do tempo uma postura absolutamente refratária aos contatos da Proteção Animal Mundial para a abertura de diálogo e prestação de apoio na elaboração de políticas que atendam aos critérios de bem-estar dos frangos, que proporcionem um produto de melhor qualidade aos seus consumidores e que sejam mais corretos quanto aos impactos para a sociedade em geral.

KFC e Pizza Hut surgem a seguir, com desempenho idêntico inclusive nos subcritérios avaliados, alcançando 6% de conformidade, ficando somente no nível 6.

Fechando a lista também no nível 6, o mais baixo, mas sem registrar nenhum ponto pela completa indisponibilidade de informações públicas, estão Domino’s e Starbucks.

“A média dos resultados das companhias presentes no Brasil foi de atendimento de apenas 10% dos critérios exigidos. Para se ter uma ideia, a média de todos os países avaliados foi de 16%O melhor resultado foi o do Reino Unido, com 45%. Ou seja, as redes ainda deixam a desejar e avançam lentamente no mundo todo. Mas no Brasil as empresas parecem estar negando a realidade. O que é surpreendente, especialmente em meio à pandemia de Covid-19, cuja origem mais provável é zoonótica. Os sistemas industriais intensivos de produção que abastecem essas redes são um risco à saúde, sob muitos aspectos, e a todo o sistema econômico, como estamos vivenciando”, avalia Ciocca.

Desempenho das empresas no Brasil - "Botando Ordem no Galinheiro 2021"

 

Desempenho global e destaques locais - KFC lidera

Além das redes citadas, internacionalmente a análise da Proteção Animal Mundial inclui também a rede Nando’s, de atuação centrada no Reino Unido, América do Norte e Oceania. Os 14 mercados cobertos são: Austrália, Brasil, Canadá, China, Dinamarca, Estados Unidos, Holanda, Índia, Indonésia, Quênia, Nova Zelândia, Reino Unido, Suécia e Tailândia.

 

Ranking global - Pontuação média consolidada das empresas em cada país - "Botando Ordem no Galinheiro 2021"   

As principais conclusões em relação aos resultados desta edição de “Botando Ordem no Galinheiro” são:

  • O KFC é a única empresa a alcançar globalmente o nível 3 (“progredindo”) devido ao alinhamento com o “Better Chicken Commitment” (BCC, ou “Compromisso por Frangos Melhores”, em tradução livre – veja mais detalhes abaixo) em sete mercados europeus. Também porque produziu relatórios sobre seu desempenho em relação aos padrões de bem-estar dos frangos na Europa Ocidental. O nível 3 mantém o desempenho registrado em 2020, mas com melhor pontuação;
  • O KFC é a única empresa a atingir o nível 1 em classificações locais (Dinamarca, Holanda, Suécia e Reino Unido);
  • Apesar de subir um nível, de “fraco” para “começando”, o McDonald’s, ao contrário de muitos de seus concorrentes, ainda não mostra disposição de se inscrever no BCC em qualquer mercado global;
  • Na ponta inferior da classificação, a Domino’s tem se mantido consistentemente no pior nível, 6, “ruim”, desde o primeiro relatório, há três anos.

Em relação aos critérios de análise, as companhias somaram a maioria dos pontos através da publicação dos compromissos assumidos e da definição metas claras. Há uma falha generalizada, entretanto, e que permanece ao longo do tempo, no que diz respeito à comunicação de progressos feitos para melhorar a vida das galinhas.

Disparidades regionais não deveriam acontecer – e atingem o Brasil

As empresas estão fazendo avanços concretos nos mercados europeus. Também é possível notar maior grau de comprometimento das marcas nos Estados Unidos. Não à toa, nestes locais as companhias registraram os melhores resultados neste relatório de 2021. Mas, por se tratar de redes globais, não deveria haver esse tipo de distinção ou descompasso. Até porque estas diferenças não estão em consonância com os dados de produção, exportação e consumo de carne de frango em diferentes países.

“Um exemplo disso são os resultados bastante fracos de Subway, Burger King, KFC e Pizza Hut no Brasil uma vez que todas estas companhias são signatárias do “Better Chicken Commitment” em outros mercados. O mesmo vale para Domino’s e Starbucks que, pior ainda, tiveram desempenho nulo no Brasil enquanto aderem ao BCC em outros mercados”, destaca o gerente da Proteção Animal.

Algumas possíveis razões que contribuem para essa situação são a maior conscientização da população na Europa e EUA quanto aos problemas da agropecuária industrial intensiva; as oportunidades de expressão e o ambiente democrático para o debate social e cobrança pública por melhorias; a menor discrepância de poder aquisitivo entre classe sociais como forma de facilitação do estabelecimento do senso comum.

Como é feita a análise

“Botando Ordem no Galinheiro” avalia as empresas por meio de informações publicamente disponíveis em três áreas:

  • Compromisso (compromissos corporativos): o quanto suas políticas definem claramente a importância do bem-estar dos frangos para as empresas;
  • Ambição (objetivos e metas): se há um cronograma definido que demonstra os objetivos, metas e promessas que uma empresa fez para melhorar o bem-estar dos frangos – e em que prazo eles serão cumpridos;
  • Transparência (relatórios de desempenho): existência de relatórios de desempenho elaborados pelas próprias empresas, e quão claras são as informações sobre o cumprimento de suas promessas de bem-estar dos frangos ao longo do tempo.

Os critérios que sustentam a metodologia de avaliação estão ancorados no “Better Chicken Commitment”. De forma simplificada, o documento propõe um robusto conjunto de melhorias para a produção intensiva de frangos. Foi criado pelo conjunto das principais organizações de proteção animal do mundo e baseia-se nas evidências científicas mais recentes. Os critérios do BCC incluem o uso de frangos de crescimento mais lento e o fornecimento de mais espaço e melhor iluminação (incluindo iluminação natural).

Centenas de empresas assinaram o compromisso na América do Norte, Europa e Austrália. Não há ainda nenhum signatário no Brasil ou na América Latina em geral (o que também é verdade para Ásia e África).

 

Confira o relatório na íntrega em:  https://www.worldanimalprotection.org.br/node/39311

 


 

Sobre a Proteção Animal Mundial (World Animal Protection)

A Proteção Animal Mundial move o mundo para proteger os animais por mais de 50 anos. A organização trabalha para melhorar o bem-estar dos animais e evitar seu sofrimento. As atividades da organização incluem trabalhar com empresas para garantir altos padrões de bem-estar para os animais sob seus cuidados; trabalhar com governos e outras partes interessadas para impedir que animais silvestres sejam cruelmente negociados, presos ou mortos; e salvar as vidas dos animais e os meios de subsistência das pessoas que dependem deles em situações de desastre. A organização influencia os tomadores de decisão a colocar os animais na agenda global e inspira as pessoas a mudarem a vida dos animais para melhor. Para mais informações acesse: www.protecaoanimalmundial.org.br.