Sexta, 14 Janeiro 2022 10:23

ADEUS, POETA MAIOR!…por marlen lima

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…Artigo I.
Fica decretado que agora vale a verdade.
que agora vale a vida,
e que de mãos dadas,
trabalharemos todos pela vida verdadeira.

E ASSIM COMEÇA O POEMA (Os Estatutos do Homem - Ato Institucional Permanente), QUE CERTAMENTE SE SOMOU AOS MUITOS DA SUA PRESTIGIOSA VERVE, E QUE DEU A THIAGO DE MELO A IMORTALIDADE, O RECONHECIMENTO GLOBAL DE SUAS OBRAS…E HOJE, 14, ELE PARTIU PARA SUA ESPERADA VIAGEM SOLO, e assim o orgulho cabôco nos deixa, e seguindo numa nova espiral além de nós, que aqui ficamos continuados com sua obra.

AbbaPai!

Nesta madrugada desta sexta, em sua casa em Manaus, faleceu o maior dos poetas amazonenses, e listado dentre os melhores e renomados do mundo, Amadeu Thiago de Mello, que nasceu em Porantim do Bom Socorro, município de Barreirinha (a 330 quilômetros de Manaus), no dia 30 de março de 1926.

Homem letrado, além de poeta era tradutor, foi em seu tempo um dos mais influentes e respeitados escritores, aqui e no exterior, reconhecido como um ícone da literatura regional.

O poema - Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente), em que ele escreve dedicado - A Carlos Heitor Cony - retrata acima de tudo da vida e o respeito visceral pela verdade vivida…
 
Artigo II.
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III.
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Thiago era um homem que viveu para ver muitos horrores, como a guerra, e ditaduras, democracias, e certamente sofreu em todas as épocas, porque ainda hoje seu poema maior tem sentido como se hoje estivesse sendo escrito…
 
Artigo IV.
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo Único:
O homem confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Como cabe aos poetas, artistas acima de meros mortais, o poema de Thiago vem com a inocência das angelicais crianças…
 
 
 
Artigo V.
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI.
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII.
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.
 
Em tempos que vivemos a Justiça ser tão distorcida, e justamente o povo ser tão massacrado por quem jamais deveria…O poema é sempre muito atual nesta visão eterna de Thiago…

Artigo VIII.
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX.
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha sempre
o quente sabor da ternura.

Artigo X.
Fica permitido a qualquer pessoa,
a qualquer hora da vida,
o uso do traje branco.
 
E assim, era Thiago, sempre de branco, eu, hoje com 53 anos, tive uma oportunidade de entrevistá-lo em Brasília, e por outros anos que o vi em Manaus, jamais houve algum momento que o poeta de branco não estivesse…

Artigo XI.
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo.
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII.
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido.
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII.
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade.
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

Santiago do Chile, abril de 1964

Publicado no livro Faz Escuro Mas Eu Canto: Porque a Manhã Vai Chegar (1965).

Thiago sempre foi precoce, e de Manaus, quando ainda criança na capital chegou, depois se mudou para o Rio de Janeiro e, em 1950, ingressou na Faculdade Nacional de Medicina, mas, não concluiu. Ouviu o coração que já dizia escrever, não receitas…mas, a vida, a poesia…

Thiago de Melo sempre defendeu a vida, o direito de cada cidadão, e sua obra podemos comprovar isto… E mais do que nunca aqui, nestes versículos expostos…

Boa viagem, e enlatados os cabôcos ficam, bem como o resto do mundo…